15/06/2010

SIGMAR POLKE : O último alquimista da arte

Em 1963, Sigmar Polke criou com Gerhard Richter e Konrad Lueg um estilo artístico denominado-realismo capitalista.Ao lado de nomes como Joseph Beuys (seu ex-professor), Gerhard Richter, Georg Baselitz e Jörg Immendorff, Polke fez parte de uma geração de artistas que marcou a arte alemã no pós-guerra.

Adepto da imprevisibilidade, foi um dos co-fundadores do que chamou de "realismo capitalista", uma corrente artística ancorada, por um lado, no quotidiano (assim como a pop art), mas que se via como uma vertente irónica do realismo socialista e criticava o consumismo exacerbado, e o Zeitgeist dos anos de milagre económico na Europa Ocidental. Aproximou-se da alquimia e de outros venenos. A sua pintura é uma negação do estilo.

Polke estabeleceu como estilo a ausência de estilo, não se deixando enquadrar em nenhum padrão. A sua obra – pintura, fotografia, desenho, gravura e objectos – costuma ser exposta separadamente, média por média, pois os curadores acreditam que esta seja a melhor forma de ordenar a complexa criação do artista.

Para criar, servia-se sem pudores de elementos da pop art, do construtivismo e do minimalismo, além de se considerar herdeiro de movimentos como o Fluxus e a Arte Povera.

Polke é um moderno com um desarmante sentido de humor, que prolongou as vias do romantismo e do simbolismo até ao século XXI, podendo mesmo ser considerado como um herdeiro de Hermes Trimegisto, de Albrech Dürer e de Francisco José de Goya y Lucientes - o encontro, em 1982, com uma reprodução de Las Viejas (ou El Tiempo), obra realizada pelo artista espanhol em 1812, terá, segundo a historiadora Gloria Moure, afectado desde então a totalidade do trabalho do pintor alemão.

Serralves tem na sua colecção várias obras do artista: desenhos, fotografias e uma pintura Sem Título datada de 1978. Em Lisboa, Polke está representado na Colecção Berardo (Centro Cultural de Belém) com duas obras.

Uma característica peculiar das obras de Polke é o humor, que o auxiliava a manter uma distância irónica do mundo e das suas trivialidades."Ele era um artista para quem a beleza e o horror andavam lado a lado" ,analisa Konig(director do Museu Ludwig, de Colónia) ao ressaltar que Polke nunca teve qualquer preocupação em agradar ao mercado ou a quem quer que seja que esperava algo de sua produção.

A estréia artística de Polke ocorreu em 1963, na loja de móveis Berges, em Düsseldorf. Junto com Gerhard Richter, Konrad Fischer-Lueg e Manfred Kuttner, ele protestou em favor do Realismo Capitalista, lançando o lema "Vida com Pop". Na época, tinha vinte e poucos anos, vivia há uma década na Alemanha Ocidental e estava matriculado na Academia de Artes de Düsseldorf.

A "exposição-protesto" era mais do que uma polémica sobre a pop art deste lado do Atlântico e para além da Cortina de Ferro. Seu ponto de partida era uma linguagem pictórica referente ao cotidiano, como à da pop art made in USA.

Mas nessa ação de Düsseldorf, o alvo da crítica era tanto o realismo socialista da Alemanha Oriental como a pintura dogmática do pós-guerra no oeste da Alemanha. A crítica dos três artistas se dirigia contra os mecanismos da ideologia do consumo da pequena burguesia alemã.

Em conseqüência disso, surgem quadros com malhas e estruturas decorativas, nos quais Polke transfere para a pintura padrões visuais extraídos da imprensa, livros de banca de jornal, anúncios e cartazes de cinema.

Os padrões de bolachas de chocolate, pôsteres de mulheres nuas, barras de chocolate e meias masculinas são aplicados à tela, gerando idílios burgueses sobre uma tapeçaria de florezinhas que Polke elegeu como motivo pictórico, tornando-se internacionalmente famoso por isso.

Apesar de a predileção por pontos também se dever à sua miopia de nascença, conforme diz o artista, avesso à sede de interpretação da crítica, Polke não utiliza o sistema de pontos como meio estilístico superficial, como o fez Roy Lichtenstein, mas o explora em sua profundidade filosófica.


A sua biografia dificilmente garante acesso à sua obra, embora ele até pareça interessado em escrevê-la, como o fez no texto Frühe Einflüsse, späte Folgen (Influências Iniciais, Conseqüências Tardias), para um catálogo da Kunsthalle de Tübingen. Mas isso não ajuda muito.

Ver um Polke como ele é só é possível através de uma visão individual. "Ver as coisas como elas são": uma frase escrita de trás para frente sobre um de seus quadros, como se as letras estivessem espelhadas.

Dedicou-se a experiências com cores e diferentes materiais sobre telas de grande formato, tanto no atelier como na câmara obscura. Polke começou a "fotografar" de acordo com critérios da pintura e aplicar sobre a tela ligas de prata sensíveis à luz. E continuou pintando, desenhando, escrevendo, fazendo colagens e montagens, inclusive sobre vidro ou folha de plástico.

Ele queria que seus quadros se tornassem vivos, transformando-se em organismos que reagem ou continuam se desenvolvendo. Polke experimentou o que acontece quando se mistura verniz, diluente, nitrato de prata, bário, metanol ou álcool nos quadros. O artista confessa ter usado em suas telas pigmentos até perigosos, como o verde Schweinfurt, que contém arsénio.

E prosseguiu com os seus experimentos, chegando a aproveitar o avesso da tela e a usar drogas alucinogénas. Em 1986, Polke surpreendeu o público da Bienal de Veneza com uma "mistura especial" de tinta de parede para o Pavilhão Alemão, sensível a luz, humidade e temperatura do corpo. Se havia muita gente dentro, a cor ficava azul; se passava alguma nuvem, ficava rosa.

"Fungus Rock" (na imagem)1992, é uma serigrafia, e resina sobre tela, foi vendido por 501 mil dólares.Composta por uma sobreposição de elementos pintados, impressos e estampados. Pastel tecido de poliéster, uma malha irregular de pontos pretos estampado na superfície, e salpicos de pigmentos coloridos criam um efeito de colagem, não só unindo imagens díspares, mas as texturas e materiais também. Além das disparidades visuais, os elementos pictóricos se parecem ser tiradas de diferentes períodos.Contra o frio aquoso dos padrões azul e roxo do tecido é um visualizador the stain. O vermelho grande sente~se compelido a alternar entre os vários componentes, a impressão de apoio e os motivos que parecem estar estampados em cima dele, criam um visão quase alucinatória há hierarquia visual, a imagem é desconstruída e combinadas com outras imagens.

Perplexo com essa pintura "higroscópico" (feita com substâncias que reagem à humidade do ar) e com sua instalação Athanor (Caldeirão dos Alquimistas), o júri homenageou-o com o Leão de Ouro para pintura.

A sua contemporaneidade revela-se nos seus motivos e procedimentos imagéticos. Depois de criar o burocrata Dr. Bonn (1978) num pano de lã xadrez e abordar o terrorismo da RAF (Facção do Exército Vermelho), Polke realizou trabalhos como Fronteira Americano-Mexicana (1984), Obra Comunitária Conjuntura Leste (1992) ou Fim da Fuga (1992).

Ao que tudo indica, ele quer eliminar a menor suspeita de que seja esteticista. Ao contrário do Polke irónico, o "artista político" Polke costuma ser injustamente esquecido.

Uma prova da sua contemporaneidade também são as suas experiências com xerox, nos quais o artista transforma com a maior facilidade reproduções em originais. Polke sabe manipular o procedimento xerográfico com mestria. Ele arrisca movimentos desfocados e dupla exposição, remisturando os motivos.

Em 1995, xeretou para a revista do diário Süddeutsche Zeitung uma série de imagens sobre o tema Kugelsichere Ferien (Férias à Prova de Bala), que ainda se orientam pela malha de pontos, como há 30 anos, mas mesmo assim evidenciam uma "alteração".

"As imagens também ficam ofendidas, se não forem contempladas", diz uma das citações mais propagadas de Polke. Já faz tempo que ele virou os quadros ao contrário sobre o piso da Kunsthalle de Düsseldorf e interditou com uma grade o acesso ao espaço central da sua exposição, intitulada A Arte Liberta.

Laternae Magicae, uma obra tardia feita sobre tecido de poliéster transparente, permite ver através dos lados da frente os seus respectivos avessos.

Sua contemporaneidade se revela em seus motivos e procedimentos imagéticos. Depois de criar o burocrata Dr. Bonn (1978) num pano de lã xadrez e abordar o terrorismo da RAF (Facção do Exército Vermelho), Polke realizou trabalhos como Fronteira Americano-Mexicana (1984), Obra Comunitária Conjuntura Leste (1992) ou Fim da Fuga (1992).

Grandes retrospectivas nos Estados Unidos (1990–92), em Amesterdão (1992), Bona (1997), Berlim (1997) e Humlebaek (2001), todas receberam a atenção merecida e o entusiasmo do público, recebeu prémios de arte no mundo inteiro. Foi escolhido quatro vezes seguidas o artista contemporâneo número um do Capital Kunstkompass, ranking de artistas da revista alemã de economia Capital.

A morte de Sigmar Polke - o pintor de 69 anos morreu na sexta-feira, em Colónia, com um cancro - marca o desaparecimento de um dos derradeiros, senão mesmo o último, alquimista da arte, um dos principais artistas plásticos contemporâneos, com obras avaliadas em milhares de euros. Era avesso aos média, na Alemanha, o nome de Polke era associado de imediato a uma aura de "mistério", já que se mantinha muito arredado à publicidade e pouco aparecia em público.

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