
Agosto de 1969. Centenas de milhares de pessoas reúnem-se numa quinta em Bethel, a 145 km de Nova York, para celebrar a música, o amor livre e os ideais da contracultura.No mês anterior, o homem tinha dado os primeiros passos na Lua e, um ano antes, o mundo inteiro viu os estudantes a manifestarem-se nas ruas de Paris, naquilo que ficou para a História como o Maio de 68. Nos Estados Unidos, a guerra do Vietname estava no auge e a contestação em relação ao conflito radicalizava-se.
Foi a altura em que a esmagadora maioria dos jovens entrou no universo das drogas, no amor livre, num regime de liberdade nunca antes visto. Quarenta anos depois algumas dezenas de discos, livros e documentários,revelam que a história do lendário Festival de Woodstock é mais do que conhecida.
Uma das muitas historias que faltava conhecer, é a história de Elliot Tiber, “o gay que salvou Woodstock”.

Tema de “Taking Woodstock”, comédia de Ang Lee, tinha feito "O segredo de Brokeback mountain",chega aos cinemas no final deste mês, é a história de um jovem gay que tem um sonho e que trabalha para realizá-lo. Mostra que nem todos os gays são como os filmes mostravam - viciados em drogas, com distúrbios psicológicos, assassinos, lunáticos ou pior. Fala de um homem decente, bem-educado, com uma vida de trabalhador.
Tiber foi quem indicou e intermediou o aluguer da quinta que sediou o festival, nos dias 15, 16 e 17 de Agosto,1969. Exactamente um mês antes da abertura do evento, inicialmente previsto para acontecer em Wallkill para um público estimado de 50 mil pessoas, a câmara de vereadores da cidade cancelou a licença de realização do festival, deixando o produtor Michael Lang e seus sócios com uma dívida de US$ 2 milhões já investidos em estrutura de palco, som e técnicos.
Os organizadores planearam tudo para uma multidão calculada em 200 mil pessoas, com bilhetes a oito dólares por dia. Para os três dias custaria 18 dólares e, quem comprasse no próprio dia, teria de desembolsar 24. Venderam-se 186 mil bilhetes.

Mas logo nas primeiras horas do dia 15 de Agosto, a organização constatou que as suas contas sairam furadas ao ver o recinto invadido por mais de 500 mil pessoas, sendo completamente impossível proceder a qualquer tipo de controlo. O festival passava a ser gratuito. E a sorte foi que a Polícia cortou as estradas de acesso a Bethel . Vários músicos tiveram de ser transportados de helicóptero.
O local transformou-se numa área de calamidade. Não existiam infraestruturas , não havia saneamento nem primeiros socorros para tanta gente. Ainda por cima choveu torrencialmente, o que só trouxe mais problemas, nomeadamente nas questões de higiene. Mesmo assim, só se registaram duas mortes, uma por overdose de heroína, outra resultante de um atropelamento por um tractor.
“De repente, parecia que tudo aquilo poderia mudar. O Festival de Artes e Música precisava de um lar e de uma licença. ‘Tenho a licença’, pensei comigo. ‘E posso garantir um lugar para o evento ’”, escreveu Tiber no livro de memórias recém-lançado e baptizado de “Aconteceu em Woodstock”. “‘Meu Deus! A gente pode sediar este troço!’”, continuou ele, que, então aos 34 anos, dividia o seu tempo entre o trabalho no El Monaco, hotel de beira de estrada comprado por seus pais, e a presidência da Câmara de Comércio de White Lake, comunidade vizinha a Bethel.
No livro e no filme, os eventos que se sucederam são narrados em ritmo alucinante – da chegada do helicóptero com os produtores do festival para vistoriar o local à invasão quase que imediata de milhares e milhares de hippies à pacata White Lake. Pela primeira vez na sua história, transformado no quartel-general dos organizadores, o El Monaco teve todos os quartos alugados; pela primeira vez, Tiber viu a sua mãe distribuindo sorrisos em vez de grosserias, e também pela primeira vez na vida, o jovem judeu recebeu carinho do pai, que, doente, acabou morrendo um ano depois do festival.
“Ele abraçou-me lá e disse: ‘você fez tão feliz’. Mas não pôde dizer ‘eu te amo’. Ele nunca disse. A mamãe também não, estava sempre ocupada contando o dinheiro”, lembrou Tiber . Homossexual assumido, o autor de “Aconteceu em Woodstock” relata a seguir a sua própria versão do que aconteceram naqueles “três dias de paz e música” – e de muita relação.

Mas não tínhamos crack, cocaína ou heroína naquele festival. As pessoas fumavam maconha e tomavam ácidos. Era um tempo de inocência. Eles uniram-se e ajudavam-se porque a comida e a água estavam a acabar. Havia muita camaradagem e muita gente fazendo amor, claro. Era muita gente bonita tirando a roupa e banhando no lago, a fazer amor.
Quarenta anos depois, o mundo está olhando novamente para Woodstock.
"Woodstock libertou-nos. Devia haver pelo menos uns 50 mil ou talvez 100 mil gays e lésbicas no festival. De repente, eu estava cercado pela minha nação. Gays e lésbicas eram a segunda nação de Woodstock. Havia amor livre por todo lado, fiz amigos ali também e alguns namorados" relembra Tiber.
"Foi só então que eu me senti parte da raça humana, porque até ali eu achava que era o único gay" .
E eu não fui muito ao festival, estava muito ocupado a cuidar dos meninos e meninas que se tinham magoado ou que estavam com ‘bad trips’ de ácido.Mas eu podia ouvir a música alta do lugar onde estava. E consegui chegar ao lugar do show uma vez, quando um policia me levou na sua moto. Consegui ir ao backstage e conhecer Janis Joplin, Jimi Hendrix, Santana, ou Joan Baez. Muitos ficaram no meu hotel, El Monaco".
Conheci Jimi Hendrix, Richie Havens, mas a minha favorita era Janis Joplin. Eu não conhecia ninguém dessa gente, não eram do meu mundo, mas os discos dela tocavam nas boates de gays. Fui ao backstage e lá estava ela bêbada, chapada, caido no chão e eu segurei-a nos meus braços, ( a mim aconteceu-me o mesmo com o Iggy Pop, na primeira vez que veio a Portugal nos anos 80, no final do concerto- ainda hoje tenho a prova, no bilhete), conversamos – eu também estava chapado.
Hoje a fazenda está dividida em duas partes. Uma tem o museu [em homenagem a Woodstock, inaugurado em 2008] e o centro de artes, e a outra é a casa da fazenda e o celeiro. Então, visitei meu amigo. Em alguns shows de reunião nos últimos anos, Richie Havens, Michael Lang, e Country Joe foram lá tocar.
Tiber hoje é escritor, comediante, faz palestras nas universidades de todo o mundo falando de Woodstock, e dá aconselhamento a jovens. Está com um livro novo, chamado "Palm trees in the Hudson River - The Mafia and Judy Garland". É um livro de memórias sobre o período em que convivi com Judy Garland, a actriz de “ Feitiçeiro de Óz” em 1967.

Michael Lang já realizou festivais nos 25º e 30º aniversários de Woodstock. Tinha intenções para organizar um grande ao ar livre, no Prospect Park, em Nova Iorque, para celebrar os 40 anos, mas não conseguiu angariar patrocinadores.
Ficou-se por um evento mais modesto, novamente na quinta de Max Yasgur, e hoje mesmo, participam Levon Helm Band, Jefferson Starship, Ten Years After, Canned Heat, Big Brother and Holding Company e Country Joe McDonald.
Sim, havia festivais antes de Woodstock, mas nenhum deles teve o impacto cultural que Woodstock. Ficou comprovado que um festival de musica pode ter um enorme impacto na cultura. Em três dias de paz, amor e música, entre meio milhão de jovens sujos e com fome foi possível mudar o mundo. " We loved rock and roll "
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