"Perguntei ao Paul McCartney se tinha influenciado os Beatles. Ele disse-me: tu criaste os Beatles. Se não fosses tu não tínhamos existido”. Quem o diz é Les Paul, o pai da guitarra eléctrica, no obituário do jornal americano “New York Times”, numa espécie de entrevista póstuma em que o entrevistado revisita toda a sua vida, reconhecendo que “o fim está à vista”.
A iniciativa é original mas não dispensa uma certa dose de morbidez, inata ao tema. Afinal de contas, as personalidades que são entrevistadas sabem que a entrevista só será publicada depois da sua morte, daí o título da série de vídeos, “As Últimas Palavras”. Depois de Budd Schulberg – argumentista de “Há Lodo No Cais” – foi a vez de serem publicadas “as últimas palavras” do músico e inventor de guitarras Les Paul.
A entrevista foi realizada no ano passado, numa segunda-feira, precisamente o dia em que Les Paul costumava actuar no bar de jazz “Iridium”, em Manhattan.
O como, onde, porquê, de Les Paul
A história do músico e do inventor começou em 1928, quando tocava apenas harmónica e guitarra acústica em bares locais. Um dia, ouviu falar de uma banda itinerante de cowboys num salão de dança já fora da cidade. Demasiado novo para assistir ao concerto, entrou por uma janela da casa de banho e ficou surpreendido com o que ouviu.
“Fiquei a olhar para aquele cowboy a tocar ao longo de todo o instrumento e vi coisas que me chocaram. Tive que ir falar com ele no final e acabou por me apresentar ao “patrão”; o mais interessante estava para acontecer. Ele perguntou-me se eu tocava guitarra e eu disse que tocava harmónica e guitarra e que cantava. Pediu-me então para tocar qualquer coisa e pôs-me em cima de uma mesa. Fiquei ali a tocar e a cantar, num salão de dança e, umas horas mais tarde, o “patrão” veio ter comigo e ofereceu-me um trabalho.” A mãe consentiu que Lester William Polfuss – nome verdadeiro do músico – abandonasse a escola para partir estrada fora, ganhando 10 dólares (7 euros) por semana, a tocar ao vivo. Les Paul tinha, na altura, 13 anos.
Um dia, durante um concerto, alguém que passou disse-lhe: “O som da tua guitarra não está suficientemente alto.” E aí, pensou: “Como é que eu ponho a minha guitarra mais alto?” Tirou as bobinas magnéticas de um receptor telefónico, pô-las sob as cordas da guitarra, junto com um pedaço de ferro de um comboio que encontrou, e ligou ao rádio da sua mãe. Depois, tocou na corda.
“Aí, corri em direcção à minha mãe e disse: encontrei-o, encontrei-o [o som que sempre quis tirar do instrumento]!”. Começou então a trabalhar na madeira, dando a forma de uma mulher ao corpo da guitarra, “para ter aquele som doce. E, finalmente, consegui. Levei anos, anos e anos a trabalhar nela. Então dirigi-me aos fabricantes e eles aceitaram de imediato, dizendo que era uma novidade.” Nessa altura, a Gibson comprou o modelo, tornando-o desde então um dos mais vendidos (e aplaudidos) de sempre.
As guitarras foram a vida de Les Paul. “Toda a minha vida se baseou em tirar todos os diferentes sons desta guitarra”. E não há coisa, afirma sorridente, que o alivie mais do que tocar guitarra seja quando, onde ou por que for. “Quando estamos a ficar malucos e se passa muita coisa ao mesmo tempo, então é altura de pegar numa guitarra. Pode estar na cozinha, ou simplesmente num sítio onde possamos tocar guitarra e com isso aliviar a cabeça”.
Consciente, mas divertido, no fim
Na entrevista ao "New York Times", o músico estava consciente da sua já avançada idade, 93 anos, e explicou como se deve encarar a situação. “Quando se tem a minha idade, sabe-se que o fim está à vista. Como é que se lida com isso? Vive-se para o momento. O passado já foi, e o futuro ainda não chegou, e não há nada que se possa fazer para mudar isso. E, por isso, a coisa mais óbvia a fazer é agora.”
No vídeo de “As Últimas Palavras: Les Paul”, assiste-se a um momento de boa disposição. Uma segunda-feira, três músicos em palco, em conversa entre si e com a plateia, e Les Paul dá o mote à diversão. “Lou e eu temos tocado juntos por mais de, quê, 26 anos? E que idade tens? (70, responde Lou). E ainda tocas?”
A internet é hoje em dia o reflexo daquilo que somos para o bem e para o mal. Eu criei este blogue com o objectivo de falar sobre a cultura pop - musica, cinema, livros, fotografia, dança... porque gosto de partilhar a minha paixão, o meu conhecimento a todos. O meu amor pela música é intenso, bem como a minha curiosidade pelo novo. Como não sou um expert em nada, sei um pouco de tudo, e um pouco de nada, o gosto ultrapassa as minhas dificuldades. Todos morremos sem saber para que nascemos.
14/08/2009
LES PAUL - as ultimas palavras
"Perguntei ao Paul McCartney se tinha influenciado os Beatles. Ele disse-me: tu criaste os Beatles. Se não fosses tu não tínhamos existido”. Quem o diz é Les Paul, o pai da guitarra eléctrica, no obituário do jornal americano “New York Times”, numa espécie de entrevista póstuma em que o entrevistado revisita toda a sua vida, reconhecendo que “o fim está à vista”.
A iniciativa é original mas não dispensa uma certa dose de morbidez, inata ao tema. Afinal de contas, as personalidades que são entrevistadas sabem que a entrevista só será publicada depois da sua morte, daí o título da série de vídeos, “As Últimas Palavras”. Depois de Budd Schulberg – argumentista de “Há Lodo No Cais” – foi a vez de serem publicadas “as últimas palavras” do músico e inventor de guitarras Les Paul.
A entrevista foi realizada no ano passado, numa segunda-feira, precisamente o dia em que Les Paul costumava actuar no bar de jazz “Iridium”, em Manhattan.
O como, onde, porquê, de Les Paul
A história do músico e do inventor começou em 1928, quando tocava apenas harmónica e guitarra acústica em bares locais. Um dia, ouviu falar de uma banda itinerante de cowboys num salão de dança já fora da cidade. Demasiado novo para assistir ao concerto, entrou por uma janela da casa de banho e ficou surpreendido com o que ouviu.
“Fiquei a olhar para aquele cowboy a tocar ao longo de todo o instrumento e vi coisas que me chocaram. Tive que ir falar com ele no final e acabou por me apresentar ao “patrão”; o mais interessante estava para acontecer. Ele perguntou-me se eu tocava guitarra e eu disse que tocava harmónica e guitarra e que cantava. Pediu-me então para tocar qualquer coisa e pôs-me em cima de uma mesa. Fiquei ali a tocar e a cantar, num salão de dança e, umas horas mais tarde, o “patrão” veio ter comigo e ofereceu-me um trabalho.” A mãe consentiu que Lester William Polfuss – nome verdadeiro do músico – abandonasse a escola para partir estrada fora, ganhando 10 dólares (7 euros) por semana, a tocar ao vivo. Les Paul tinha, na altura, 13 anos.
Um dia, durante um concerto, alguém que passou disse-lhe: “O som da tua guitarra não está suficientemente alto.” E aí, pensou: “Como é que eu ponho a minha guitarra mais alto?” Tirou as bobinas magnéticas de um receptor telefónico, pô-las sob as cordas da guitarra, junto com um pedaço de ferro de um comboio que encontrou, e ligou ao rádio da sua mãe. Depois, tocou na corda.
“Aí, corri em direcção à minha mãe e disse: encontrei-o, encontrei-o [o som que sempre quis tirar do instrumento]!”. Começou então a trabalhar na madeira, dando a forma de uma mulher ao corpo da guitarra, “para ter aquele som doce. E, finalmente, consegui. Levei anos, anos e anos a trabalhar nela. Então dirigi-me aos fabricantes e eles aceitaram de imediato, dizendo que era uma novidade.” Nessa altura, a Gibson comprou o modelo, tornando-o desde então um dos mais vendidos (e aplaudidos) de sempre.
As guitarras foram a vida de Les Paul. “Toda a minha vida se baseou em tirar todos os diferentes sons desta guitarra”. E não há coisa, afirma sorridente, que o alivie mais do que tocar guitarra seja quando, onde ou por que for. “Quando estamos a ficar malucos e se passa muita coisa ao mesmo tempo, então é altura de pegar numa guitarra. Pode estar na cozinha, ou simplesmente num sítio onde possamos tocar guitarra e com isso aliviar a cabeça”.
Consciente, mas divertido, no fim
Na entrevista ao "New York Times", o músico estava consciente da sua já avançada idade, 93 anos, e explicou como se deve encarar a situação. “Quando se tem a minha idade, sabe-se que o fim está à vista. Como é que se lida com isso? Vive-se para o momento. O passado já foi, e o futuro ainda não chegou, e não há nada que se possa fazer para mudar isso. E, por isso, a coisa mais óbvia a fazer é agora.”
No vídeo de “As Últimas Palavras: Les Paul”, assiste-se a um momento de boa disposição. Uma segunda-feira, três músicos em palco, em conversa entre si e com a plateia, e Les Paul dá o mote à diversão. “Lou e eu temos tocado juntos por mais de, quê, 26 anos? E que idade tens? (70, responde Lou). E ainda tocas?”
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário