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18/06/2010

AS ULTIMAS PALAVRAS DE SARAMAGO

O último post da Fundação José Saramago dá conta da necessidade da sociedade «pensar».

«Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objectivo determinado como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma», texto publicado nesta sexta-feira (18) no blog Outros Cadernos.


«Só morre quem não vence o esquecimento»
São palavras do coordenador do grupo Mais Saramago, José Miguel Noras

O grupo tinha estado recentemente em contacto com Saramago para realizar um evento dedicado à poesia depois do Festival Sete Sóis Sete Luas, que vai decorrer na Azinhaga, concelho da Golegã.
Foi nesta freguesia, onde o escrito nasceu, que o Mais Saramago conseguiu instalar em 2009 uma estátua dedicada a Saramago, da autoria de Armando Ferreira.

MORTE DE SARAMAGO - comentada na imprensa

Um livro ficou inacabado no computador de José Saramago, um romance sobre o tráfico de armas cujo título é Alabardas, Alabardas! Espingardas, Espingardas!, um verso do grande poeta e dramaturgo português Gil Vicente.

Na mesa, junto a sua poltrona de leitura e escritura, segundo informaram familiares à Agência Efe, ficaram os últimos livros pelos quais se interessou, como- Às Cegas, do italiano Claudio Magris, que há poucos meses foi visitá-lo em sua casa de Lanzarote (Ilhas Canárias).

Também estavam as resenhas que George Steiner publicou em The New Yorker, entre 1967 e 1997, livro que recomendava vivamente aos amigos.

As suas últimas leituras incluíam o livro A Máquina de Fazer Espanhóis, do escritor Português, Valter Hugo Mãe.

Dois livros muito especiais para Saramago estavam também entre as últimas leituras. Confissões do Impostor Félix Krull, o último romance escrito por Thomas Mann, que acaba de ser reeditado e que o autor português editou há muitos anos em Portugal, e as correspondências que o próprio Saramago manteve com o também escritor português José Rodrigues Miguéis entre 1959 e 1971.


Para Eduardo Lourenço, Saramago foi, na sua história pessoal e de escritor, “o que de mais próximo tivemos da Gata Borralheira, uma gata borralheira rústica, que nasceu num berço pobre e chegou àquele trono de Estocolmo”. O prémio Nobel, diz, “foi importante para ele, mais foi-o também para o país, por ter sido o primeiro Nobel da Literatura português e porque as probabilidades de que venhamos a ter outro não são muitas”. No futuro, prevê, “a geração dele, que é também a minha, será a geração do Nobel”.
Recordando que o escritor não tinha muito apreço “pelo patético” e que “não gostaria de grandes efusões a título póstumo”, Lourenço considera que o que o romancista trouxe para a literatura foi uma “visão do mundo segundo José Saramago, uma espécie de evangelho segundo Saramago”.

O cineasta brasileiro Fernando Meirelles lamentou a morte do escritor português José Saramago. Meirelles dirigiu o filme "Ensaio sobre a cegueira", baseado na obra homônima de Saramago.

Leia a nota na íntegra abaixo.

A última vez que me encontrei com Saramago foi em Penafiel, em Portugal, em novembro passado, onde ele foi homenageado, mas na verdade tenho convivido muito com ele ultimamente pois a O2 Filmes está co-produzindo um documentários chamado José e Pilar, dirigido pelo português Miguel Mendes, sobre os últimos anos do Saramago e sua mulher. O filme é comovente de cortar os pulsos, vemos ali um homem brilhante que sabe que seu tempo está acabando e tem muita pena de morrer. O dia no qual ele pensava constantemente e que tentou adiar, chegou.

Saramago era um homem lógico, dizia que a morte é simplesmente a diferença entre o estar aqui e já não mais estar. Combatia as religiões com fúria, dizia que elas nos embaçam nossa visão, mesmo assim não consigo deixar de pensar que adoraria que neste momento ele estivesse tendo que dar o braço a torcer ao ser surpreendido por algum outro tipo de vida depois desta que teve por aqui.

A lucidez naquele grau é um privilégio de poucos, não consigo escapar do clichê mas definitivamente o mundo ficou ainda mais burro e ainda mais cego hoje.

O escritor angolano José Eduardo Agualusa lamentou a morte de José Saramago, recordando a sua «vitalidade».
«O que mais admirava em Saramago era a sua vitalidade e a sua combatividade de homem que acreditava em causas», disse à Lusa José Eduardo Agualusa.O livro de Saramago de que José Eduardo Agualusa mais gostou foi «O Ano da Morte de Ricardo Reis».

Morreu um «escritor genial», diz Lídia Jorge
A escritora acrescenta ainda que Saramago «morreu feliz» a escrever até ao fim da vida.

New York Times (Estados Unidos)
O Sr. Saramago, um homem alto, imponentemente austero e com modos secos de mestre-escola, obteve aclamação internacional pelas novelas "Memorial do Convento" e "Ensaio sobre a Cegueira".

(...) O Sr. Saramago era conhecido quase tanto pelo seu comunismo intransigente como pela sua ficção.

Para muitos americanos, o nome do sr. Saramago fica indissoluvelmente ligado à declaração que fez aquando de uma viagem à Margem Ocidental [do Jordão]m em 2002, quando comparou o tratamento dado por Israel aos palestinianos com o Holocausto.

Corriere dell Sera (Itália)
Em Itália tornaram-se notadas sobretudo as suas polémicas com Silvio Berlusconi, que depois definiu o escritor como "um delinquente".

L'Unitá (Itália)
Pelas suas posições sobre o conflito do médio Oriente, foi acusado de anti-semitismo, ao passo que o "Memorial do Convento", mas principalmente o seu "Evangelho" e o texto para teatro "A segunda vida de Francisco de Assis" sofreram os ataques da Santa Sé.


El País (Espanha)
A fama internacional chegou a Saramago precisamente com esta novela [O Ano da Morte de Ricardo Reis] escrita com uma rara intensidade poética que tinha sabido assimilar todas as lições da narrativa moderna. Numa conferência pronunciada por esses mesmos anos 80, recordava o conselho que ele próprio costumava dar aos seus leitores que diziam não entender bem os seus livros devido às misturas de vozes e à ausência de marcas convencionais nos seus diálogos: "Leia-os em voz alta". Funcionava.


Der Spiegel (Alemanha)
Nos seus livros em forma de parábola, [Saramago] mostrava-se um comentador crítico dos acontecimentos mundiais. Segundo a opinião dos críticos, os seus romances, comparados com Franz Kafka ou com Gabriel Garica Márquez, e girando em torno do desenvolvimento do proletariado agrícola na periferia da sociedade industrial, caracterizavam-se por um estilo narrativo com linguagem rica em imagens e evocando o barroco, entrecortada aqui e ali por fina ironia ou por ácido sarcasmo.


El Mundo (Espanha)
Criador de um dos universos literários mais pessoais e sólidos do século XX, José Saramago soube conjugar a sua vocação de escritor com a sua faceta de homem comprometido, que nunca cessou de denunciar as injustiças à sua volta, ou de pronunciar-se sobre os conflitos políticos do seu tempo.

MORREU JOSÉ SARAMAGO

José Saramago faleceu em casa na ilha de Lanzarote, Espanha, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após prolongada doença.

Prémio Nobel da Literatura em 1998, o escritor português assinou uma vasta obra editada em mais de três dezenas de países. Militante comunista, em perpétua oscilação entre a ortodoxia ideológica e o discurso desalinhado de livre-pensador, Saramago deixa para a História um trajecto tão polémico como indelével.

Na esteira do Nobel, Saramago cresce em intervenção cívica: nos anos subsequentes atacará o ímpeto imperialista dos Estados Unidos dos neoconservadores e de George W. Bush, a ocupação israelita dos territórios palestinianos, mas também as execuções, em Cuba, de opositores ao regime de Fidel Castro.

"A nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida", disse um dia o autor de "Memorial do Convento" .

Foi um funcionário do Registo Civil que justapôs à Certidão de Nascimento, como apelido, a alcunha da família Meirinho Sousa - Saramago. A míngua de dinheiro entravou-lhe o percurso no Ensino Secundário. Abraçou, então, a vida profissional como serralheiro mecânico. Foi desenhador, funcionário dos serviços de saúde e previdência, editor e tradutor. Destacou-se como crítico literário na Seara Nova e articulista político no Diário de Lisboa, entre 1972 e 1973. Em 1975, na voragem política e social da Revolução de Abril, foi director-adjunto do Diário de Notícias.

O primeiro romance, "Terra do Pecado", é editado em 1947.

Os críticos do homem e da obra apontam a Saramago uma certa soberba mal disfarçada, por vezes impositiva. O escritor Mário de Carvalho discorda: "Era muito atento aos escritores mais jovens e era um homem sem prosápia ou vaidade de grande senhor. Foi um homem a quem o sucesso nunca subiu à cabeça, portou-se com a mesma modéstia e elevação de sempre. Porventura o nosso maior escritor do século XX, que tem a particularidade de ser um século mais rico no tocante ao romance português".

Em inúmeras ocasiões, Saramago tinha pedido um debate profundo sobre o sistema democrático, convencido como estava de que o verdadeiro poder não reside nos governos e sim nas multinacionais. "Falar de democracia é uma falácia", costumava dizer.

"Saramago vai durar o que durar a literatura portuguesa". A frase, da autoria do escritor Mário Cláudio, uma das personalidades ouvidas pela agência Lusa após a notícia da morte de José Saramago, poderia servir de epitáfio no momento em que o país perde um dos seus mais prolífico e aclamados autores. Perde, também, uma voz directa e polémica, por vezes incompreendido, capaz, ao mesmo tempo, da mais pungente ternura e do mais áspero golpe. Firme na fidelidade ao comunismo, mesmo quando as práticas dos regimes lhe feriam o humanismo, nunca hesitou em questionar os dogmas religiosos, nos parágrafos que redigiu e nas palavras que escolheu para o espaço público. Em Novembro de 2005, numa entrevista ao jornalista Adelino Gomes, nas páginas do jornal Público, o escritor fazia a síntese do seu conceito do Mundo. "O universo não tem notícia da nossa existência". E "a finitude é o destino de tudo".

O corpo de José Saramago vai ser cremado em Lisboa, onde chega amanhã para as cerimónias fúnebres do Nobel da Literatura. O Governo português decidiu que sábado e domingo são dias de luto nacional para demonstrar o pesar pela morte de José Saramago. A morte do Prémio Nobel da Literatura, aos 87 anos, suscitou reacções dos sectores político e cultural, em países de expressão portuguesa e espanhola.

É em 1991 que José Saramago publica a mais polémica das suas obras. "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", uma leitura desmistificada da vida do messias, levá-lo-ia, dois anos mais tarde, a deixar o país e a rumar para Lanzarote, nas Canárias. António Sousa Lara, então subsecretário de Estado da Cultura no Executivo social-democrata de Cavaco Silva, travou a candidatura do romance a uma distinção literária internacional, à luz do argumento de que o conteúdo da obra era "ofensivo" para os católicos. A "reconciliação" com o Estado português chegaria em Abril de 2004 na forma de um almoço com Durão Barroso. Sousa Lara nunca aceitou a trégua, garantindo que tornaria, hoje como ontem, a vetar o livro: "O que me chateia mais na política é a indefinição de fronteiras, gosto mais da política com fronteiras, com clivagens e opções de escolha claras, mas pelos vistos isto está fora de moda".

A par dos prémios literários, José Saramago coleccionou doutoramentos Honoris Causa atribuídos por diferentes universidades da Europa.Aquando do doutoramento Honoris Causa pela Universidade Autónoma de Madrid, dirá: "Eu, no fundo, não invento nada. Sou apenas alguém que se limita a levantar uma pedra e a pôr à vista o que está bor baixo. Não é minha culpa se de vez em quando me saem monstros".

"Foi um homem que afirmou a sua criação literária através da liberdade de pensamento" e com uma "força crítica e de auto-crítica", destaca a ministra da Cultura, que vai num C-295 do Governo português recolher o corpo de José Saramago a Lanzarote. Além da ministra, viajam no avião militar familiares de José Saramago.

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