A internet é hoje em dia o reflexo daquilo que somos para o bem e para o mal. Eu criei este blogue com o objectivo de falar sobre a cultura pop - musica, cinema, livros, fotografia, dança... porque gosto de partilhar a minha paixão, o meu conhecimento a todos. O meu amor pela música é intenso, bem como a minha curiosidade pelo novo. Como não sou um expert em nada, sei um pouco de tudo, e um pouco de nada, o gosto ultrapassa as minhas dificuldades. Todos morremos sem saber para que nascemos.
19/08/2010
MIGUEL ESTEVES CARDOSO
A partir de Janeiro de 2006 retomou a sua colaboração no Expresso. Lançou o livro Em Portugal não se come mal, em 2009.
Miguel Esteves Cardoso contou que a mulher, Maria João Pinheiro, tinha cancro da mama. Um ano depois, o jornalista e escritor volta a usar a sua crónica no jornal Público, (desde Julho de 2010), para dizer que o cancro «morreu».
Na edição de dia 1 de Julho, expressa a sua felicidade pelo facto de a mulher estar curada e recorda os maus momentos do Verão de 2009.
O que é feito do MEC?
“O que é que aconteceu nestes últimos anos? Você está morto? Por onde é que você anda?” Há muitas respostas. Estive a fazer um intervalo. Estive retirado, como o Leonard Cohen no budismo.Continuo escrevendo as minhas crónicas e em Maio do ano passado tive um susto enorme. Fui parar ao hospital com uma coisa horrível no fígado, daquelas em que se fica à beira da morte.Deixei de fumar, estou numa espécie de limbo, por ter voltado à vida.
Foste vítima do teu lado hedonista.
Não. Era outra coisa. Era a gula, era não ser capaz de parar. Era querer provar tudo, mesmo sabendo o mal que aquilo representa para o corpo. O que tem muito a ver com as drogas. Drogas legais e drogas ilegais. A cocaína, um problema do caraças que tive durante muitos anos. Problema alegre que depois se torna um problema horrível. E todas as outras drogas que possas imaginar, excepto a heroína e o haxixe. Uma espécie de gula transcendental.
E agora estás a pagar a factura.
Estou a pagar a factura, a conta do bar.
Alegrias simples.
É estares vivo, pá. Estando morto não fodes, não fumas, não bebes.
Depois do caos, atingiste uma espécie de equilíbrio.
A arte está em tu abusares enquanto podes. Porque o corpo permite grandes abusos
Aos trinta e tal anos, já não se vai a tempo.
Não. Tem que ser enquanto se é novo. Há uma ciência da vida.
E tu não conseguiste gerir essa ciência?
Não, não geri nada bem, pá. Geri mal porque agora posso beber muito poucochinho.
É disso que te arrependes?
Sim. Devia ter bebido uma garrafa de vodka em vez de três.
Quais são as diferenças entre o MEC actual e o MEC que há precisamente duas décadas editou A Causa das Coisas?
Agora tenho cinquenta anos. Quando comecei a escrever nos jornais, tinha vinte e tal. Eu acho que o escritor tem que ser verdadeiro, tem que transmitir aquilo que é. Agora sou um velho. Pior, estou naquela idade complicada em que já se deixou de ser jovem mas ainda não se é suficientemente velho.
Muitas pessoas insistem em dizer: “o MEC acabou”. Isso incomoda-te?
Não me incomoda absolutamente nada. Há uma determinante biológica na escrita. E as crónicas que publiquei quando era novo eram isso mesmo: as crónicas de um homem novo..
Nas crónicas que reuniste em A Minha Andorinha, alguns dos mais clássicos defeitos dos portugueses acabam por se transformar em virtudes: a procrastinação, a inveja, a desconfiança, a preguiça, o orgulho, a mania de conceber projectos impossíveis de concretizar, etc.
É como com o corpo da mulher que nós amamos. Ao fim de dois anos de observação atenta, descobres uma linha qualquer em que não tinhas reparado e não é o defeito que tu vês, mas uma coisa bela que tu encontraste, uma coisa nova. Ofusca-te e não vês o defeito. É um bocado isso o que acontece quando me ponho a analisar Portugal e os portugueses.
Após uma primeira vaga de influência na imprensa, nos últimos tempos inspiraste muita gente que escreve na blogosfera. Quase todos os melhores bloggers portugueses que estão na casa dos trinta anos se reclamam, de uma maneira ou de outra, herdeiros do Miguel Esteves Cardoso. Como se houvesse de facto uma geração MEC.
Isso é lindo, comovente. Há blogues fabulosos. Muitíssimo bem escritos. E tens pelo menos uns trinta com um nível francamente superior ao da nossa imprensa. Conheço os blogues americanos e os ingleses, mas acho os portugueses os melhores de todos, os mais bem escritos, os mais bonitos, de longe os mais poéticos.
Muitos desses bloggers são pessoas que na adolescência se fascinaram com o projecto d’O Independente, que aprenderam a gostar de jornais com O Independente. Como é que viveste o fim anunciado de um projecto que ajudaste a criar?
Já tinha vivido antes. A verdadeira morte d’O Independente aconteceu há muito, muito tempo.
Estava em coma.
Quem matou O Independente fui eu e o Paulo Portas. Quem tornou impossível a continuação daquilo foram as pessoas que fugiram. Os que abandonaram o barco.
Achas que há espaço, hoje, para um jornal que represente o que o Indy representou nos anos 90?
Porque não? Tem é que ser na Internet. Um jornal exclusivamente web e gratuito, mas um jornal a sério.
Já não te sentes com energia para tomares a iniciativa?
Há uma idade para tudo. Eu já fiz o meu jornal. Eu já fiz a minha revista.
E fizeste os teus romances. Mas desde 1996 que não publicas ficção. É um capítulo encerrado ou apenas uma área da tua escrita que está suspensa?
Está suspensa. Tenho um romance bloqueado, enorme, que estou a reescrever. E tenho outros já prontos, inéditos.
[Invencão de Morel- Resumo da entrevista publicada na edição de 15 de Dezembro 2006,do suplemento 6.ª do Diário de Notícias]
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